A pele de seda, que outrara vestiu-me,
hoje reveste-se de linho com suas tramas perfiladas pelo tempo. Os
anos fizeram da pele de meu corpo sua estrada na caminhada da minha
vida.
Na pele deslizante, corredor de mãos amadas que já sentiram a sensação
de pétalas de rosas, hoje sentem vestígios de uma pele macia com minúsculos
sulcos a permear o rosto e pressentem no corpo insinuações de que
algo mudou.
A pele translúcida de anos atrás deu lugar à pele opaca, que consegue
recuperar o brilho quando o amor chega e iluminar-se pela maravilha
de sentir-se amada.
Buscar nas lembranças o corpo sedoso de formas sensuais rouba-me um
sorriso discreto e um tanto irônico pela realidade atual.
Hoje, parei no tempo para reviver os momentos que me fizeram detentora
de olhos masculinos, que me enrubesciam fazendo-me fugir daqueles
olhares que marotamente descortinavam desejos.
Quantas de nós, mulheres, fomos pensamentos eróticos de rapazes em
descobertas de desejos ?
A cada ano mais lindas e mais desejadas.
Um tempo em que paixões foram despertadas pelo visual de nossa silhueta
acoplada à elegância e à maneira sutil de gesticular e de manter-se
alvo discreto de olhares fantasiosos.
Hoje, não perdemos a elegância, a classe, aquele sorriso discreto
e agradecido nem tampouco o olhar sonhador, a boca molhada de prazer
e o calor das mãos com o magnetismo da sedução quando percorrem o
corpo na trilha do desejo.
Pensando bem, nem sei se perdemos algo .
Creio que fizemos uma troca. Trocamos aquele corpo de visão para agrado
de muitos, pelo corpo casulo de nossa alma em lapidação.
Ganhamos a cumplicidade da alma .
Nossa alma comandante de nossas ações é também aquela que nos ensinou
a manter as portas abertas do coração para abrigar o amor maduro que
nos chega para enfeitar a nossa estrada da vida, sem tempo certo para
acabar.
Ganhar um amor com a idade que ostentamos, quando muito já aprendemos
e muito temos para aprender, é ter a sensação maravilhosa de que viver
é ter a certeza que sonhar é o caminho para a sustentação do nosso
amanhã.
Não importa o que fora vestimos, o que importa é abraçar a realidade
com a consciência de que já fomos cobiçadas por fora e que hoje somos
cobiçadas por dentro, por tudo que aprendemos, que entendemos da vida
e do amor.
A sensação hoje é de que a pele está na transformação certa para dar
passagem à conquista de um amor sereno, de uma vida a dois sem cobranças,
sem esteriótipos de uma sociedade vestida de futilidades e frágil
demais no entendimento da alma .
Aprendi que não importa o tempo, os anos e a nossa transformação visual,
o que importa é sentir-se bem com você, com a vida e com o amor.
Amar com o coração e a alma é sentir o corpo em harmonia abraçando
a felicidade.
Curitiba, 19 de junho de 2005
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